What goes around comes around (Part 2)
Dos Açores para a Califórnia – da Califórnia para os Açores.
Na última semana estava muito quente no Alentejo, por isso decidimos deixar as uvas a continuar a amadurecer e tirar umas pequenas férias nas ilhas temperadas e verdejantes dos Açores. Para alcançar os Açores, desde Lisboa, voa-se na rota para Nova Iorque e aterra-se a um terço da distância sobre o Atlântico, depois de duas horas e meia, o que equivale a 1500 km. Vergonhosamente, foi a nossa primeira visita aos Açores e, definitivamente, não será a última.
Sempre que me fazem a inevitável pergunta sobre quais os mercados para onde exportamos os nossos vinhos, eu gosto de responder com um trocadilho: que a Madeira e os Açores são os nossos maiores mercados externos. Eles não são tecnicamente mercados de “exportação”, mas, se fossem, estariam destacadamente em primeiro lugar. Há muitos anos que “exportamos” os vinhos das Cortes de Cima, e essa evidência esteve bem patente nesta viagem. Fomos encontrá-los inclusivamente na lista do restaurante de um dos melhores hotéis em Ponta Delgada, o Hotel do Colégio, in Ponta Delgada. Mas esta não foi uma viagem de marketing!
Foi uma viagem familiar e, como viajámos com jovens desportivos, foi muito activa, com natação em piscinas vulcânicas naturais, excursões de barco para observar golfinhos e baleias, e imensas caminhadas pelas crateras vulcânicas, às vezes apreciando vistas espectaculares, outras vezes com visibilidade zero devido às nuvens baixas e ao nevoeiro rasteiro. Estávamos constantemente a relembrar a expressão açoriana “experimentar as quatro estações num único dia“. Mais de uma vez a perseverança foi premiada, como na nossa subida ao Pico, que começou nos 1400 metros, andando às apalpadelas para encontrar o trilho no meio de um cerrado nevoeiro, mas que terminou com num sol radioso nos 2350 metros, o ponto mais alto de Portugal.
Do Pico podemos ver nitidamente as ilhas mais próximas, Faial,
São Jorge e, mais importante para nós, a Graciosa, terra natal, em 1872, do bisavô Francisco Correia Sarmento. Honramos a sua memória subindo ao pico no seu dia de aniversário, 22 de Julho – 136 anos depois do seu nascimento! Ele viajou para a América com o resto da família em 1888 e nunca voltou aos seus amados Açores. Em New Bedford, juntou-se a outros imigrantes açorianos que trabalhavam na comunidade da pesca à baleia, mas, quando a indústria americana da baleia entrou em declínio, ele partiu para a Califórnia, onde acabaram por se instalar mais de metade dos emigrantes portugueses daquela altura.
Frank Courier Simonds (o seu nome anglicano) assentou na costa do Pacífico, em San Diego, onde plantou figueiras, abacateiros, oliveiras e, claro, vinhas. Depois desta viagem aos Açores e de ter compreendido a importância e o papel que o mar representa no dia-a-dia de um ilhéu, não consigo imaginar que alguém criado na Graciosa consiga ser feliz longe do mar.



